Cadê o Geraldão?
- Zeca Sampaio

- 22 de nov. de 2021
- 3 min de leitura

Carnaval de 1987, segunda-feira magra, poucos foliões, garoa intermitente.
Ao final do glorioso desfile, enquanto os instrumentos iniciam seus misteriosos caminhos rumo a um possível retorno para a terça apoteótica, no dia seguinte, e as famílias se organizam para o lanche noturno antes da volta às respectivas casas, um grupo renitente toma a saideira na frente da padoca.
Lá pela terceira ou quarta rodada de cerveja temperada de pinga – porque é preciso combater a umidade –, chega a notícia de que o Geraldão está desaparecido. Suas coisas estão na praça, mas ao que tudo indica ele não tinha completado o percurso e estava faltando.
Imediatamente, eu, Pato, Guga e Sergio Alli nos dispusemos a formar uma expedição de resgate. Saímos pela Teodoro, rumo a Artur Azevedo, pois alguém se lembrava de tê-lo visto por última vez na esquina da Fradique, antes da subida.
O grupo seguiu animado, abastecido por uma garrafa surgida não sei de onde, contendo combustível suficiente para o início da jornada.
Ao chegar na Matheus Grow a turma decidiu dar uma verificada no Seu Américo, talvez o sumido tivesse se desgarrado para lá em um golpe de memória. O bar estava fechado, mas logo adiante mesas na calçada pareceram bastante convidativas para uma primeira parada de reabastecimento.
Dali, o bando seguiu para o Vavá, onde por costume quase abandona seus objetivos e atravessa mais uma noite entre cervas e cachaças.
Alguém, acho que foi o Guga, lembrou da importante missão em que nos encontrávamos e resolvemos seguir em direção à Vila Madalena, destino provável de qualquer desgarrado vaiquemqueriano.
E assim, seguimos pela noite; vários bares, vários reajustes no nível do combustível, vários amigos, foliões extraviados encontrados pelo caminho se juntando ao grupo.
A certa altura entre a Harmonia e Fidalga, em um boteco que não sou capaz de determinar exatamente, o Geraldão que vinha acompanhando o grupo há umas duas pausas para comes e bebes, num arroubo de curiosidade, perguntou.
– Mas, vem cá... Afinal de contas... Quem estamos procurando?
O Pato, dando-se conta.
– Você, Geraldo, nós estamos procurando por você, faz horas já. Você tinha sumido.
– Mas Pato, vem cá... Como eu posso ter, é... sumido se eu estou aqui falando com vocês? Ou vocês não estão me ouvindo,... e vendo?
Seguiu-se então animada discussão socio cultural filosófico política que se prolongou noite adentro, com participação exaltada dos diversos convivas. Debate esse de suma importância para os destinos da nação vaiquemqueriana, como de resto, para todas as outras nações do mundo.
Infelizmente, naquele tempo não tínhamos o recurso de gravação como hoje temos em nossas interessantíssimas reuniões pela web. De modo, que não posso relatar aqui as observações fundamentais que foram proferidas em tal momento, ainda mais que a amnésia alcoólica torna toda a história um pouco confusa.
Mas o fato é que tudo aconteceu exatamente desse jeito, tim tim por tim tim. Salvo melhor juízo em contrário.
PS: Verificando minhas anotações por aqui, descobri que em 1987 eu estava de mudança de casa em Ilhabela e tive que passar o Carnaval por lá cuidando disso. De modo que eu não poderia ter participado dos eventos relatados, embora esteja certo de que tudo se passou assim, porque a história me foi contada em algum bar, só não me lembro bem de qual, por algum dos participantes que também não sei precisar. De qualquer forma é só perguntar para eles, e se algum deles não lembrar isso tudo é porque eu confundi os personagens e ele não fazia parte da turma. Afinal, em excursões etílicas de resgate pós-segunda-feira de Carnaval, Vai Quem Qué.





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